domingo, 7 de novembro de 2010

HISTORIA DO LEVANTE

O início do grupo Levante de Teatro do Oprimido se deu num espaço onde as idéias de transformação social já estavam embasadas. Esse espaço era o do movimento social Brigadas Populares (BP’s). Porém, existia a necessidade de se alcançar uma amplitude além da possibilitada pela “militância convencional”. Nesse quadro, o Teatro do Oprimido surge como uma “luva”, para alguns militantes do movimento.

Ao saber da existência do método desenvolvido pelo teatrólogo brasileiro, Augusto Boal[1], alguns dos militantes foram a uma oficina oferecida no Centro Cultural Alto Vera Cruz por Meire Regina, Multiplicadora do método que recebera formação pelo Centro de Teatro do Oprimido-RJ (CTO-Rio)[2], através do projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto[3] em parceria com o Ministrério da Cultura/Cultura Viva.

Pedro, Laila, Edinho e outros militantes começaram a oficina, entretanto, somente Pedro e Edinho concluíram-na ao quinto dia, maravilhados com o método. Os dois gostaram tanto da novidade que solicitaram uma oficina para outros militantes das BP’s no DA de engenharia da UFMG.

A segunda oficina foi oferecida por Meire Regina e Adriano Gonçalves. Dessa vez com maior número de militantes participando e como resultado montou-se uma cena de Teatro- Fórum, que futuramente viria a se chamar “Balaio de gado”. Foi o suficiente para que alguns dos brigadistas adotassem o método criado por Augusto Boal.

Deram-se início os encontros semanais aos sábados onde, além de Laila, Pedro e Edinho, participavam também Flávia, Felipe e outros brigadistas, além de Mary Astrus, que não era militante das BP’s, mas, havia participado da oficina. Nesse momento a experimentação dos jogos, exercícios e discussões sobre o método era prioridade. Entretanto, havia uma grande necessidade de ir além. A criação de um grupo era eminente e Felipe sugere o nome “Levante” que foi discutido e muito bem acolhido por todos e todas.

Os encontros de sábado, até então quinzenais, se tornam cada vez mais consistentes e logo o grupo sente a necessidade de torná-los semanais. O espaço era o DA de Engenharia da UFMG.

Nesse período surge a segunda fase do projeto Teatro do Oprimido de Ponto a ponto, desenvolvido pelo centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro. Duas pessoas do grupo tiveram a possibilidade participar dessa nova formação de multiplicadores do TO. Pedro e Edinho foram os representantes. O processo do primeiro módulo (julho 2008) durou uma semana, num total de 56 horas de capacitação, ministrado pelo Curinga[4] Flávio Sanctum do CTO-Rio. Em seguida, setembro do mesmo ano, surge o segundo módulo da capacitação, também com duração de 56 horas.

O curso conferiu aos participantes o título de Multiplicadores do método em Belo Horizonte e em MG. Mais do que isso, fortaleceu o grupo, que adquiriu propriedade para trabalhar com o método e suas várias possibilidades (Teatro-Fórum, Teatro Imagem, Arco-íris do Desejo, Teatro Legislativo e outras vertentes) além dos jogos, exercícios e o processo de multiplicação.

As atividades do grupo aumentaram e não foi mais possível a utilização do espaço DA de Engenharia UFMG. O grupo continuou os ensaios em parques e praças ao mesmo tempo em que se criava uma peça de Teatro-Fórum, “Crise no Mercado”, que foi apresentada durante o segundo Encontro de Comunidades e Resistência, promovido pelas Brigadas Populares em outubro de 2008. Participaram desse trabalho Felipe, Mary Astrus, Flávia, Edinho, Pedro e Luana.

Em novembro de 2008 ocorreu o “Diálogo cultural” de TO, que consistia em um encontro das pessoas e grupos, que foram formados a partir da capacitação proporcionada pelo CTO-Rio com apresentações das peças criadas. Isso já seria uma preparação para a primeira Mostra Mineira de TO que ocorreria em 2009.

Nesse momento Flávia, Felipe e Luana deixam o grupo. Os outros membros que eram Mary Astrus, Pedro e Edinho começam a reorganizá-lo, sem pensar em parar com o trabalho.

No início do novo ano Pedro passa por uma cirurgia e se mantém em repouso por um período, ainda que, acompanhando o futuro do Levante, juntamente com Mary Astrus e Edinho. Porém, aos poucos se aproximava a Pré-Mostra (março) de TO em preparação à oficial, que ocorreria logo a seguir (abril).

Novas pessoas, praticantes do TO, foram convidadas pelo grupo para temporariamente trabalhar a cena que seria apresentada na Mostra. Eram Suzy ( que sairia em seguida), Ramom, Karina e Clarice, que atuaram na pré-mostra juntamente com Mary Astrus, Edinho e Pedro, já restabelecido. Em seguida, Tiago, que havia participado da oficina no DA Engenharia, retorna ao grupo, ensaiando a cena “Balaio de Gado”.

Após a Mostra o grupo se consolida. Surgem mudanças como a integração de Meire Regina, já conhecida de todos e Samara, que após assistir a cena se interessa pelo trabalho. Nesse momento o grupo já não contava mais com Karina e Clarice.

Seguindo com apresentações, oficinas e multiplicações em diversos espaços o Levante mantém seu caráter de grupo aberto, acolhendo pessoas que queiram experimentar o método. Entre elas, Marina, que frequentava os encontros foi convidada, por necessidade do grupo, a participar de duas apresentações.

O Levante se concentra em um novo objetivo: preparar-se para a primeira conferência mundial de Teatro do Oprimido no Rio de Janeiro, estruturada para fortalecer e integrar as ações do TO no mundo. O evento aconteceria em julho de 2009, após a morte de seu mentor, Augusto Boal, falecido em maio do mesmo ano.

A participação na conferência consolida ainda mais a atuação do grupo Levante que adquire maior respeito e reconhecimento, além de grande aprendizado. Ao retornar do Rio seguem-se os ensaios do grupo, num espaço conquistado no Centro Cultural UFMG.

Hoje o grupo conta com parcerias como o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos, Centro Cultural Alto Vera Cruz, Brigadas Populares e Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro. Segue oferecendo multiplicações, oficinas e capacitação para quem deseja multiplicar e difundir o método revolucionário de fazer Teatro;[5] participando de seminários e encontros, sempre voltados para questões sociais e de luta contra a opressão e se capacita junto ao CTO-Rio rediscutindo e pesquisando o método constantemente em suas muitas formas de superar opressões.

Atualmente o Grupo Levante é composto por Mary Astrus, Meire Regina, Pedro Henrique e Edinho.



[1]Fundador do Teatro do Oprimido, que alia a arte à mudança objetiva e à ação social, Augusto Boal foi uma das maiores figuras do teatro contemporâneo e soube conjugar o verbo atuar em todos os modos, tempos e pessoas. Principalmente as do plural. Um dos mais importantes diretores de teatro da conteporanedade, Boal nasceu no Rio de Janeiro em 1931. Estudou na School of Dramatics Arts da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, onde foi aluno do dramaturgo John Gassner. Entre 1971 e 1986, quando esteve exilado por motivos políticos, desenvolveu experiências teatrais em diversos países, merecendo o reconhecimento do público, da crítica, dos estudiosos e do meio teatral, sendo indicado ao Prêmio Nobel da Paz e nomeado Embaixador do Teatro pela UNESCO em 2009. Augusto Boal faleceu em maio de do mesmo ano.

[2] O Centro de teatro do Oprimido – CTO-Rio (www.ctorio.org.br), fundado por Augusto Boal, é um centro de pesquisa e difusão, que desenvolve metodologia do Teatro do oprimido em Laboratórios de Interpretação e em Seminários de Dramaturgia, ambos de caráter permanente, para revisão, experimentação, análise e sistematização de exercícios, jogos e técnicas teatrais. Nos Laboratórios e Seminários são elaborados e produzidos Projetos Sócios Culturais, Espetáculos Teatrais e Produtos Artísticos variados, tendo alicerce na Estética do Oprimido que trabalha com três eixos: Palavra, Som e Imagem. A filosofia e as ações do CTO-Rio visam a democratização dos meios de produção cultural, como forma de expansão intelectual de seus participantes. Além da propagação do Tearo do Oprimido como meio da ativação e do democrático fortalecimento da cidadania.

[3] Fácil de ser ensinado e aprendido, o Teatro do Oprimido é o primeiro Método Teatral elaborado no Hemisfério sul que é utilizado em mais de setenta países dos cinco continentes. Não se trata apenas de estilo ou gênero teatral – é a linguagem humana por excelência, que existe dentro de cada um de nós: é o teatro essencial. Somos os únicos habitantes da terra capazes de criar metáforas – de sermos artistas: de nos ver, vendo; ouvir-nos, falando; analisar as ações agindo. Somos atores e ao mesmo tempo, espectadores dos nossos atos. “O ato de transformar é transformador”(Boal). A Estética do oprimido, parte integrante do sistema, ajuda os participantes a escrever, pintar, dançar. Através da Arte - de todas as Artes. O objetivo de quem trabalha com o TO é entender melhor o mundo e transformá-lo. Pensando assim o Projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto foi elaborado para capacitar multiplicadores ligados a Pontos de Cultura e grupos artísticos sociais interessados. O projeto foi desenvolvido em parceria com o inistério da Cultura, através do programa Cultura Viva e visa democratizar o acesso a esse Método, contribuindo decisivamente para o fortalecimento, dinamização, diversificação e ampliação do raio de ação dos Pontos de Cultura. A experiência envolve instituições de 18 estados brasileiros, sendo desenvolvida simultaneamente em Moçambique, Guiné Bissal e Angola.

[4] Curinga é o facilitador de Teatro do Oprimido: um artista com função pedagógica, que ministra cursos e oficinas, dirige espetáculos e atua como mestre de cerimônia nas sessões de Teatro-Fórum, mediando o diálogo entre palco e platéia, estimulando a participação e orientando a análise das intervenções feitas pelos espectadores (espec-atores).

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