Por Meire Regina (multiplicadora) – BH/MG
A coerência entre a opção proclamada e a prática é uma das exigências que educadores críticos se fazem a si mesmos. É que sabem muito bem que não é o discurso o que ajuíza a prática, mas a prática que ajuíza o discurso.
Palavras do criador da Pedagogia do Oprimido Paulo Freire (A importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam), assim como Augusto Boal, pensador de importância e necessário à formação na luta contra a opressão. Considerado pelo criador do Teatro do Oprimido como segundo pai, enfatiza e defende a grandiosidade da "leitura de mundo" na construção histórica do ser como sujeito da própria história. E é lendo essas sábias palavras que penso em como venho ao longo dos anos me esforçando para fazer valer, na prática, o conceito de coerência e transformação e confesso que não é nada fácil, pois requerem esforço e reflexão constante inspirados em leituras de mundo, visão crítica e auto-avaliação. Assim o é também trabalhar com o Teatro do Oprimido. Faz-se necessário exercitar nossa práxis, aliando discurso, leitura teórica e ação para que não nos percamos na vaidade de participarmos de práticas tão transformadoras, principalmente quando temos ciência de que, historicamente, a alteridade é desrespeitada. E em tempo atual essa realidade vem se intensificando como um ciclo vicioso de opressão.
É na prática que fazemos valer nosso discurso político transformador através da Arte, da Pedagogia e da Educação. E quem se propõe a trabalhar o Teatro do Oprimido, lida com a junção dessas três vertentes como cultura libertadora, tendo no Teatro o caminho que nos possibilita sermos, facilitadores e facilitadoras de leituras analisadoras e críticas da realidade opressiva. Oprimidos muitas vezes não sabem que o são e quando sabem, têm dificuldades em encontrar meios para superarem a opressão vivenciada. E uma cena de Teatro-Fórum, por mais simples e sucinta que seja, colabora para clarear a visão, rompendo com as barreiras da impossibilidade. É a oportunidade da identificação em que os espect-atores se mobilizam a fim de encontrarem alternativas que superem a opressão encenada, analogamente às suas vidas práticas e salientarem igualmente o opressor (que habita dentro de todo ser) para que o mesmo se veja como tal e faça também uma reflexão acerca dos seus atos.
Penso que, se de uma forma ou de outra, a ação pontual não for suficiente para banir imediatamente a opressão, abre caminhos difusores que salientam a liberdade como fruto de conquista constante. E aí está a importância da coerência de nós, multiplicadores e multiplicadoras, uma vez que, também "convivenciamos" a opressão. É necessário termos as nossas próprias experiências e não nos esquecermos delas, pois nos possibilitam a sensibilidade e justeza para a alteridade. Assim, não nos tornamos opressores fundamentalistas e não nos deixamos oprimir, encontrando sempre saídas para as nossas dificuldades, sendo harmônicos com os nossos discursos e práticas, buscando descobrir a nossas verdades.
Assim pode-se falar também em transformação. Paulo Freire enfatiza que não somos seres da adaptação, mas, da transformação. Para que sejamos coerentes com o que discursamos, precisamos passar pelo processo transformador, quebrarmos paradigmas e crenças que nos foram cristalizadas sob a égide do senso comum historicamente e culturalmente impostas. E isso é um caminhar sempre. Muitas vezes nos descobrimos oprimidos e opressores e ainda cegos pela neutralidade comodista. E praticar o TO é, em construção e reconstrução, nos despirmos de tais adjetivos, tendo consciência do que estamos realizando. Isso é transformação transformadora.
...todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas. “Teatro era o povo cantando livremente ao ar livre: o povo era o criador e o destinatário do espetáculo teatral, que se podia chamar “canto ditirâmbico”. Era uma festa que podiam todos livremente participar. Veio a aristocracia e estabeleceu divisões: algumas pessoas iriam ao palco e só elas poderiam representar enquanto todas as outras permaneciam sentadas, receptivas, passivas: esses seriam os espectadores, a massa, o povo.
Palavras do criador do Teatro do Oprimido e candidato ao Prêmio Nobel, Augusto Boal (Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas). Quando disserto sobre a transformação e quebra de modelos historicamente cristalizados, uma vez que estou falando do TO, cito essa passagem do livro como exemplo da importância contextual e histórica do teatro. Boal vai à raiz do fato de que o teatro é um ato político e nasceu do povo, então se é político, não pode ser neutro. Todo fazer teatral se posiciona, por mais que muitos acreditem que é pura arte compromissada apenas com o entretenimento, e infelizmente quem pensa assim, está de certa forma, induzindo ao erro e isso é uma atitude política (Boal). Ademais, como afirmar que o espectador não pode ser ator, se é inerente ao ser humano a interpretação, a teatralidade? Então, ter coerência transformadora é acreditar no que se faz. E trabalhar como multiplicadora do Teatro do Oprimido é ter visão holística da nossa inteireza tecida a partir do mosaico do nosso ser subjetivo e conflitante para que possamos, de fato, lutar por um mundo possível e melhor, sem opressão. É nos transformando que facilitaremos a transformação, através do teatro.
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