quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um Conto Feminino: O VENTO JÁ O SOUBERA

Meire Regina

Uma mulher sofreu um ataque cardíaco fulminante e morreu dormindo. Morte morta sem o gosto do acontecimento.

Enquanto o rosto sereno descansava no caixão do velório, o pensamento de um olhar atento e contemplativo vasculhava a curiosidade de saber “por que dormindo?” Talvez a mulher não quisesse a morte, ou o seu fim. Talvez soubesse que depois de... vem a verdade. A verdade do existir e queria senti-lo com a mansidão de quem espera com paciência a noite fresca cair em silêncio.

Pobre mulher, ali, exposta à curiosidade, no velório da Saudade. Sua música é lenta, seu canto angélico e rompante sua vida. Logrado, respeitosamente é o choro baixo que vem do fundo no olhar do homem que entendeu, enfim, que de um ser não há cópia. É único, ela era. Ela é. O pensamento sabe agora que tudo morre, até a paciência... Até o amor, a carne morre, mas o ser não. O ser de cada um é. Nada mais é.

E o vento que jogou as folhas secas pela janela do pequeno cômodo frio já o soubera. Ela sabe o segredo de muitos. As perdas e ganhos. Sabe que quando se perde se ganha. E se ganha tarde, porque o que conquistou terá que ser dedicado à outra, ou a outro. Porque sentiu tarde demais. Valorizou tarde demais. O que se ganhou já se foi. É na realidade o sentimento outrora esquecido. Porque o objeto do desejo, o objeto do amor se foi. Para sempre. Foi viver a verdadeira liberdade de existir. A liberdade de ser.


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